segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Vocação.

Às vezes digo, em tom de pilhéria, que consultórios médicos e escritórios de advocacia têm algo em comum; geralmente são procurados por quem está com problemas… Engenheiros e arquitetos, por outro lado, são procurados por quem tem uma grana no bolso e uma ideia na cabeça… Muito melhor!

Em um pensar simplista, medicina e direito deveriam ser as menos desejadas por aqueles que estão iniciando a busca por uma profissão, pois quem, em sã consciência, ia querer ser acordado a qualquer hora, ouvir reclamações o dia todo, participar das disputas e querelas do dia a dia ou digladiar com a morte? Só mesmo quem, por vocação, não se imagina fazendo outra coisa.

Acontece que não é essa a realidade. Tenho uma filha que recém terminou o colegial e entrou na disputa por um lugar na faculdade; o número de candidatos por vaga naquelas duas profissões ultrapassa em muito o número de pretendentes nas outras o que, em um raciocínio simplório, poderia fazer pensar que o Brasil é um país de médicos e advogados natos.

Ingenuidade à parte, fico imaginando a debandada se, por uma febre igualitarista, todas as profissões tivessem status e rendimentos idênticos. Nada contra sucesso financeiro ou social, eu os desejo para minha filha, só acho que não é saudável que ocorram apartados do sucesso pessoal, e esse só atingimos quando estamos em sintonia com nossa natureza, a qual determina a vocação profissional.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um futuro diferente.

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Chegou-me às mãos parte do que Leonardo Boff escreveu na introdução da obra A REFUNDAÇÃO DO BRASIL de Luiz Gonzaga de Souza Lima; achei muito bom e, apesar de ser um pouco longo, compartilho… Deu vontade de ler o livro!

“…Luiz Gonzaga de Souza Lima avança uma perspectiva original e de grande força interpretativa com seu texto A Refundação do Brasil: do Estado Economicamente Internacionalizado à Nova Sociedade Biocentrada.Há interpretações clássicas sobre a formação da nação-Brasil. Mas esta do cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima é seguramente singular e adequada para entender o Brasil no atual processo de globalização: A Refundação do Brasil: rumo a uma sociedade biocentrada (Rima,São Carlos 2011). Seu ponto de partida é o fato brutal da invasão e expropriação das terras brasileiras pelos “colonizadores” à base da escravidão e da superexploração da natureza.

Não vieram para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Ela resultou da articulação entre reinos, igrejas e grandes companhias como a das Índias Ocidentais, Orientais, a Holandesa (de Mauricio de Nassau), com navegadores, mercadores, banqueiros, não esquecendo as vanguardas modernas, dotadas de espírito de aventura e de novos sonhos, buscando novos conhecimentos e enriquecimento rápido.

Ocupada a terra, para cá foram trazidas matrizes (cana de açúcar e depois café), tecnologias modernas para a época, capitais e escravos africanos. Todos eram considerados “peças” a serem compradas no mercado e como carvão a ser consumido nos engenhos de açúcar. Com razão afirma Souza Lima: ”o resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir à economia; no Brasil nasceu o que se pode chamar de ‘formação social empresarial”.

A modernidade no sentido da utilização da razão produtivista, da vontade de acumulação ilimitada e da exploração sistemática da natureza, da criação de vastas populações excluídas, nasceu no Brasil e na América Latina. O Brasil, neste sentido, é novo e moderno desde suas origens.

A Europa só pôde fazer a sua revolução, chamada de modernidade, com seu direito e instituições democráticas, porque foi sustentada pela rapinagem brutal feita nas colônias. Com a independência política do Brasil, a formação social empresarial não mudou sua natureza. Todos os impulsos de desenvolvimento ocorridos ao longo de nossa história, não conseguiram diluir o caráter dependente e associado que resulta da natureza empresarial de nossa conformação social. A tendência do capital mundial global ainda hoje é tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado. Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities para o mercado mundial, sem ou com parca tecnologia e valor agregado.

A empresa Brasil é a categoria-chave, segundo Souza Lima, para se entender a formação histórica do Brasil e o lugar que lhe é assinalado no processo atual de globalização desigual.

O desafio consiste em gestar um outro software social que nos seja adequado, que nos desenhe um futuro diferente. A inspiração vem de algo bem nosso: a cultura brasileira. Ela foi elaborada pelos escravos e seus descendentes, pelos indígenas que restaram, pelos mamelucos, pelos filhos e filhas da pobreza e da mestiçagem. Gestaram algo singular, não desejado pelos donos do poder que sempre os desprezaram e nunca os reconheceram como sujeitos e filhos e filhas de Deus.

O que se trata agora é refundar o Brasil, “construir, pela primeira vez, uma sociedade humana neste território imenso e belo; é habitá-lo, pela primeira vez, por uma sociedade humana de verdade, o que nunca ocorreu em toda a era moderna, desde que o Brasil foi fundado como uma empresa; fundar uma sociedade é o único objetivo capaz de salvar nosso povo”.Trata-se de passar do Brasil como Estado economicamente internacionalizado para o Brasil como sociedade biocentrada.

Ao refundar-se como sociedade humana biocentrada, o povo brasileiro deixará para trás a modernidade apodrecida pela injustiça e pela ganância e que está conduzindo a humanidade para um abismo. Não obstante, esta modernidade entre nós, bem ou mal, nos ajudou a forjar uma infra-estrutura material que pode permitir a construção de uma biocivilização que ama a vida em todas as suas formas, que convive pacificamente com as diferenças, dotada de incrível capacidade de integrar e de sintetizar os mais diferentes dados e valores.

É neste contexto que Souza Lima associa a refundação do Brasil às promessas de um mundo novo que deve suceder a este que está agonizando, incapaz de projetar qualquer horizonte de esperança para a humanidade. O Brasil poderá ser um nicho gerador de novos sonhos e da possibilidade real de realizá-los em harmonia com a Mãe Terra e aberto a todos os povos.”

Leonardo Boff

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ansiedade?

31/01/2012, 2º aniversario deste blog; escrever sobre o quê nesta data especial? Porque não sobre ansiedade que disputa com a depressão; da qual geralmente é pano de fundo; o primeiro lugar na procura pelos consultórios de psicólogos e psiquiatras e também pelo deste homeopata interessado nas ‘artes e manhas’ da mente?

Tratar ansiedade com homeopatia?

E porque não? Uma possibilidade de não ser necessário me aventurar pelo mar alopático num mergulho que gera mais ansiedade… Conseguirei voltar à tona? 

Pierre Teilhard de Chardin, filósofo evolucionista digno de nota, no livro O Fenômeno Humano, escreveu:

“Que, sob uma forma primordial, a ansiedade humana seja ligada ao próprio aparecimento da Reflexão, e portanto tão antiga quanto o próprio Homem, é um fato evidente. Mas que, sob o efeito de uma Reflexão que se socializa, os homens de hoje sejam particularmente inquietos, – mais inquietos do que em momento algum da História –, disso também não creio que se possa seriamente duvidar. Consciente ou inconfessada, a angústia, uma angústia fundamental do ser, transparece, apesar dos sorrisos, no fundo dos corações, ao cabo de todas as conversas. Longe estamos, contudo, de reconhecer distintamente em nós a raiz dessa ansiedade. Algo nos ameaça, algo nos falta mais do que nunca, – sem que saibamos exatamente o quê.

Procuremos, pois,  pouco a pouco, localizar a origem do mal-estar, – afastando as causas ilegítimas de perturbação até descobrirmos o ponto doloroso em que se deve aplicar o remédio, se é que existe algum.”

Eis aí o ‘x’ da questão: Descobrir o núcleo do mal-estar…

E o médico homeopata faz outra coisa?

A minuciosa anamnese não revela ao paciente um conjunto de qualidades particulares do qual, na maioria das vezes, não suspeitava?

E não se evidencia nesse conjunto aquela fragilidade específica que quando ‘cutucada’ altera a energia vital que, alterada, provoca o surgimento de sintomas?

E não é essa fragilidade particular que deve ser cuidada e equilibrada?

E nessa busca, por si só terapêutica, não se revela também o medicamento homeopático, cujo uso aquieta os sintomas e estimula as mudanças comportamentais necessárias; sem subterfúgios, sem esperanças vãs?

Não é isso tratar?