sábado, 9 de julho de 2011

Metamorfose.

Nunca fui muito ‘ligado’ a carros, para mim são como ferramentas, a gente usa quando precisa realizar uma tarefa; carro é a ferramenta que me leva aonde preciso ir e tem que estar funcionando direito, por isso tenho mais cuidado em escolher o mecânico que o lavador.

Mas até em propagandas dizem que brasileiro é apaixonado por carros… Não concordava, achava que era ‘papo de vendedor’, mas Luis Fernando Veríssimo colocou dúvidas em minha cabeça ao, em um de seus livros(1), escrever:

“…

Outra paixão misteriosa é a do homem pelo seu carro. Ou não tão misteriosa. A sensação de que basta espremer um pequeno acelerador para ter vários cavalos de força sob seu comando é um dos maiores prazeres que o mundo moderno proporciona ao homem. O homem e a máquina são uma coisa só. O motor é a sua energia, o sistema elétrico são seus nervos em perfeita sincronia, os pneus são suas garras de tigre devorando distâncias sem esforço, a gasolina é seu sangue, as prestações a pagar são seus vínculos com a realidade e com seus limites humanos.”

Também reafirma o fato de que muitos de nós, se não todos, mudamos de comportamento quando  ‘ao volante’, transformando o que deveria ser um pacífico ir e vir numa luta pela sobrevivência:

“…

Fora do carro, você está preparado para fazer todas as concessões em nome da cortesia e da boa convivência. Você é respeitoso, pacífico, solícito – enfim, um pedestre. Mas entre no seu carro e veja o que acontece. A civilização desaparece, a besta toma conta. Alguns racionalizam esta transformação e explicam que só agem assim em legítima defesa. Precisam se defender de palermas que querem deter a sua marcha e só estão esperando uma oportunidade para arranhar seu pára-lama e roubar sua vaga. Ou seja, todos os outros motoristas. O inimigo.”

E ainda conclui magistralmente:

Não é por nada que Sigmund Freud nunca quis ter automóvel. Sabia de todas as suas conotações simbólicas. Preferia uma charrete. Que, curiosamente, ele chamava de “mamãe”.”

(1)Paixões, do livro O Melhor das Comédias da Vida Privada.